O terrorismo global no século XXI

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Visita da Ku Klux Klan – Desenho de 1872, por Frank Bellew. No mesmo ano, a organização extremista que afetava o movimento negro americano foi formalmente caraterizada como terrorista.

Em 2002, o historiador americano Walter Laqueur afirmou que nenhum conceito pode abarcar todas as variedades de terrorismo existentes ao longo da história. Desde o “La Terreur” jacobino da Revolução Francesa até o surgimento da Al-Qaeda, a geopolítica global foi frequentemente alterada pelos mais diversos atos aterrorizantes. Alex Schmid, especialista holandês em instituições de terror, propôs a seguinte definição para a Organização das Nações Unidas (ONU) ¹:

“Terrorismo é um método de ação violenta e repetitiva, inspirado em aflição, empregado por indivíduos, grupos ou Estados, por razões idiossincráticas criminais ou políticas, pelas quais – em contraste com assassinatos – os alvos diretos da violência não são os principais afetados. As vítimas imediatas da violência são, geralmente, escolhidas aleatória ou seletivamente (de forma representativa ou simbólica) a partir de uma população-alvo, e servem como transmissores de uma mensagem. Processos de comunicação baseados em ameaças e violências entre terroristas, vítimas e alvos são utilizados para manipular o alvo principal, aterrorizando-o, requerendo atenção, ou exercendo demandas do mesmo, dependendo de qual intimidação, coerção ou propaganda é primeiramente efetuada.” – Traduzido e adaptado de: Schmid e Jongman, ONU (1988)

A proposta do teórico holandês resume o caráter desumano do terrorismo, que afeta indivíduos não diretamente relacionados à causa exposta. Tal problemática foi um dos principais fatores que permitiram a proliferação do terror no passado, uma vez que os serviços de inteligência ainda não podiam prever a possibilidade de um ataque aleatório. Atualmente, entretanto, esse quadro não está presente. A expansão do modelo democrático pelo globo, juntamente com o advento da tecnologia, permitiu um maior monitoramento estatal das redes terroristas, o que em geral tenderia a contribuir para o incremento da segurança.

O surgimento da ordem uni-multipolar, caracterizada pela supremacia militar norte-americana e pela difusão da economia global em diversos polos interligados entre si, facilitou a transmissão de informações em escala global. A formação de exércitos profissionais tornou-se ainda mais simples com a integração das diferentes regiões do planeta. A mútua cooperação é amplamente adotada por diversos países. Como exemplo, os exercícios militares dos EUA com as forças armadas sul-coreanas já são considerados tradição.

US and south korean exercises

Foto divulgada pela marinha americana que simboliza a chegada das tropas estadunidenses na Coreia do Sul para o treinamento entre os dois países em 2007.

O atentado de 11 de Setembro em Nova Iorque mostrou a necessidade de reforço na segurança social. O que era preciso foi efetuado, com o estabelecimento de mais regras para a aviação civil. Adicionalmente, a Guerra ao Terror instituída pelo governo de George Bush representou o processo de combate direto às entidades terroristas, até mesmo com a designação de um Eixo do Mal, que seria responsável por promover suporte a tais organizações ². As unidades de contra-terrorismo cresceram, e a sociedade americana foi iludida a acreditar no fim dos riscos de um outro ataque extremista.

A explosão de duas bombas na Maratona de Boston, entretanto, reacendeu as polêmicas relativas ao grau de proteção que existe nas sociedades ocidentais da contemporaneidade. Em muitas nações desenvolvidas, a observação do comportamento de cidadãos suspeitos é ineficiente. Meses antes da derrubada do World Trade Center, o diretor-assistente da CIA James Monnier Simon Jr. alertara à presidência: “a inteligência americana está com problemas”. As falhas do Departamento de Defesa estadunidense ainda encontram-se presentes.

De fato, existiram importantes avanços nos mecanismos de proteção pública após os atentados. A resposta do governo federal americano à tragédia de Boston foi caracterizada pelo isolamento da cidade, além da rápida identificação dos responsáveis pela catástrofe a partir do FBI. Em uma era digital, na qual tudo pode ser gravado com extrema facilidade, as fotografias tiradas pelos maratonistas foram cruciais para a apreensão do terrorista checheno. A sociedade civil foi, sem dúvida, fundamental para a solução do caso.

Todavia, mesmo conduzindo uma investigação sobre Tamerlan Tsarnaev em 2011, a polícia federal americana não conseguiu impedir a detonação das bombas, apenas prender o responsável após o crime. Os criminosos aproveitaram-se de um chamado “alvo de oportunidade”. Ainda que o governo dos Estados Unidos não tenha desvendado o motivo para o ataque, pode-se afirmar que os irmãos provenientes do Quirguistão procuraram atingir um espaço público e de difícil proteção. A realização de uma maratona na cidade com o 12ª maior PIB do mundo traz adicionalmente outra vantagem, a imediata exposição das explosões na mídia.

Percebe-se, portanto, que o terrorismo desse século não se baseia primordialmente em práticas estatais, como ocorreu durante o regime de Robespierre na França. Apesar da morte de Osama bin Laden, fruto de uma operação ilegal efetuada pelos SEAL’s americanos no Paquistão, a rede Al-Qaeda continua ativa em diversas regiões do Norte da África. Em 2010, Faisal Shahzad tentou explodir um veículo na Times Square, símbolo capitalista em Nova Iorque. Um ano depois, o Sudão do Sul era reconhecido pelas Nações Unidas, em meio ao genocídio de grupos não-muçulmanos em Darfur.

Os atos aterrorizantes do século XXI transformaram em comuns cenas de policiais de elite, como os da divisão SWAT, patrulhando cidades altamente desenvolvidas. Algumas regiões como o Oriente Médio tanto convivem com a ameaça do terror que os desastres não são muito difundidos pela mídia. Entretanto, quando regiões protegidas ostensivamente ainda são atacadas, indica-se que o investimento bélico pode não ser tão eficiente quanto parece. Nesse sentido, iniciativas como a de Barack Obama, que prega a paz entre a comunidade islâmica e o mundo ocidental, têm suma importância.

Policiais da SWAT participam da caçada ao suspeito pelos atentados em Boston. - Créditos: Darren McCollester/Getty Images/AFP

Policiais da SWAT participam da caçada ao segundo suspeito pelos atentados em Boston, após o isolamento da cidade. – Créditos: Darren McCollester/Getty Images/AFP

Notas

1– A proposta de Schmid consiste em um resumo das perspectivas acadêmicas sobre o terrorismo, uma compilação das opiniões de diversos historiadores, geógrafos e outros especialistas no assunto.

2– O Eixo do Mal foi uma expressão cunhada pelo ex-presidente George W. Bush no seu Discurso sobre o Estado da União em 29 de Janeiro de 2002, no qual se referia a países contrários aos EUA que possuiriam programas nucleares.

Fontes e artigos relacionados

What’s behind the attacks in Boston ? (em inglês, por Thiago Bittencourt)

Terrorism: A brief history (em inglês, por Walter Laqueur)

O conceito de terrorismo nos jornais americanos (por Aline Louro de Souza e Silva Rabello)

Paquistanês admite culpa por tentativa de ataque à Times Square (pelo site G1)

Legado de Cinzas: Uma história da CIA (por Tim Weiner) – Traduzido e publicado no Brasil pela Editora Record. Versão em língua portuguesa de “Legacy of ashes”, 2008.

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