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A crise na Crimeia de 2014

“Marcha da Paz” em Moscou, uma aglomeração de pessoas suplicando pelo fim das práticas militares no Mar Negro. (Créditos: Bogomolov.PL)

O discurso contemporâneo de Relações Internacionais tem se mostrado enfurecido contra a anexação da Crimeia, em progresso, pelas autoridades russas. Desde o fim da Revolução Francesa, muito se tem dito sobre o direito à autodeterminação. Os revolucionários são considerados os principais apoiadores desse conceito, o qual constituiria uma das bases do sistema internacional. Especialmente após o início da Guerra Fria, processos de descolonização defenderam a ideia de “Estado-nação”. Especificamente naquela época, a autodeterminação era mais importante do que a soberania de um Estado – caso fosse necessário, poder-se-ia dividir um país em dois, ou até mais que dois, para sustentar a noção de “uma nação, um Estado”. As Nações Unidas até tinham um órgão chamado Comitê Especial de Descolonização, encarregado de monitorar o fim do período colonial.

Conforme o tempo passava, todavia, uma clara mudança de rumo desenvolvia-se nas mentes dos políticos, especialmente nas daqueles que tentavam alcançar a coesão dentro de países específicos. Intervenções e anexações não poderiam mais ser justificadas ao evocar o princípio do Estado-nação. Aliás, desde o fim da era da descolonização e das dissoluções no pós-Guerra Fria, a única secessão relevante de um país ocorreu em 2011, devido à fundação do Sudão do Sul. Até mesmo atos supostamente “humanitários” ou “democratizantes” que envolviam invasões externas enfrentaram feroz oposição – as sucessivas incursões americanas no Iraque e no Afeganistão exemplificam perfeitamente as controvérsias relativas ao desrespeito à autonomia de um Estado.

É por isso que a situação atual na Crimeia intrigou vários analistas, uma vez que ela representa, claramente, uma ruptura com o passado. É amplamente sabido que, enquanto o governo russo luta para manter suas possessões territoriais, ele também encoraja grupos separatistas dentro de seus vizinhos. Mesmo assim, não há registro, nos últimos anos, de uma real tentativa da Rússia de expandir suas fronteiras à custa de Estados consolidados – ao menos não por meio do emprego de recursos militares (ainda que os soldados russos estejam disfarçados de rebeldes locais ucranianos). Para explicar o estado das coisas na Crimeia, deve-se apelar a uma estrutura de três diferentes – porém relacionadas – instâncias.

A partir de um ponto de vista utilitário para um intangível, pode-se dizer que a atitude da Rússia em relação à península quase independente se baseia nos seguintes propósitos: o interesse econômico nas reservas de gás e nos gasodutos existentes na região, a tentativa de contrabalançar o expansionismo ocidental no Leste Europeu, e o desejo de Vladimir Putin de reestabelecer o esplendor russo que caracterizou as primeiras décadas da Guerra Fria. De certo modo, praticamente toda a literatura acadêmica sobre a crise crimeia focou-se, pelo menos, em um dos aspectos acima mencionados. Esta dissertação desenvolver-se-á da seguinte maneira: primeiramente, examinar-se-á cada uma das hipóteses propostas para explicar a questão; em segundo lugar, sugerir-se-ão possíveis desdobramentos da situação; e, por fim, concluirá com uma pergunta a ser considerada pelos governantes desta década.

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A duvidosa qualidade da água potável brasileira

Esta foto está sujeita à licença CC BY- SA 2.0. (Créditos: Davide Restivo)

Esta foto está sujeita à licença CC BY- SA 2.0. (Créditos: Davide Restivo)

O texto a seguir foi produzido por Anne Vigna, da Agência Pública, e republicado, com permissão, segundo a licença CC BY-ND 3.0 BR. A Pública é uma “agência de reportagem e jornalismo investigativo” que visa a “produzir reportagens de fôlego pautadas pelo interesse público, sobre as grandes questões do país do ponto de vista da população – visando ao fortalecimento do direito à informação, à qualificação do debate democrático e à promoção dos direitos humanos”. Você pode consultar o trabalho da Pública clicando neste link.


Agrotóxicos, metais pesados e substâncias que imitam hormônios podem estar na água que chega à torneira da sua casa ou na mineral, vendida em garrafões, restaurantes e supermercados. Saiba por que nenhuma das duas é totalmente segura.

Pesquisar sobre a água não é fácil. Não existem leis ou regras que definam um critério uniforme para a divulgação de dados. Esperei mais de 15 dias, por exemplo, para receber as análises de qualidade para o município de São Paulo, segundo as normas da Portaria 2.914/2011, do Ministério da Saúde. Os mesmos resultados para o Rio de Janeiro estão disponíveis para consulta de qualquer pessoa no site da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), responsável pelo tratamento de água na cidade. Não se sabe por que uma das concessionárias fornece a informação publicamente, enquanto a outra não diz nada sobre o assunto.

Depois de muita espera e de uma dezena de e-mails trocados, recebi quase todas as análises da capital paulista feitas pela Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), encarregada da água e do saneamento na metrópole. No primeiro envio, porém, faltavam vários dos parâmetros considerados pela portaria do Ministério da Saúde. Por quê? Não há como saber. Depois de insistir mais, recebi todos os dados (aquiaquiaqui e aqui).

Como primeiro resultado dessa investigação sobre a qualidade da água, posso dizer que, em São Paulo e no Rio de Janeiro, dá para beber a água da torneira sem correr o risco de ser vítima de uma contaminação microbiológica. Ninguém vai passar mal, nem ter diarreia. É preciso, no entanto, verificar se a caixa d’água do imóvel está limpa. Tanto em um prédio como em uma casa, ela precisa ser lavada a cada seis meses. Nos condomínios, o síndico é o responsável por cuidar da execução do serviço. Nas residências, o proprietário tem que fazer o trabalho ou contratar uma empresa para isso. Se a limpeza estiver em dia, tudo bem.

A água usada para abastecimento público passa por um processo de tratamento e desinfecção mecânico e químico, que elimina toda a poluição microbiológica (coliformes totais – grupos de bactérias associadas à decomposição da matéria orgânica – e Escherichia coli). “A água da torneira é controlada várias vezes por dia, para se ter certeza de que está sempre dentro dos padrões de qualidade”, afirma Jorge Briard, diretor de produção de água da Cedae, no Rio. Mas o fato de se poder beber a água da torneira não quer dizer que o líquido não esteja poluído – e que não possa causar problemas de saúde no longo prazo.

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Os paraísos fiscais e a economia global

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior. Este mapa ilustra alguns dos paraísos fiscais globais. Existem países, cidades, ilhas e regiões que ostentam essa caracterização. Sem dúvida, os paraísos fiscais são muito mais que meras ilhas exóticas. (Créditos: Grant Thornton)

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a maioria das regiões do planeta que eram previamente colonizadas conquistou a independência. Aquelas que não conseguiram livrar-se da dominação externa foram apoiadas pelos Estados Unidos e pela União Soviética – superpotências ansiosas por áreas de influência –, o que contribuiu para a criação de Estados autônomos. Nesse contexto, países como a Federação de São Cristóvão e Nevis puderam consolidar sua soberania. Uma das consequências desse processo foi a fundação de paraísos fiscais, locais onde os impostos governamentais são menores do que os padrões internacionais. Enquanto que muitas pessoas acreditam que essas áreas são apenas ilhas exóticas; na verdade, elas constituem uma parte substancial do sistema econômico global.

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Por que o Estado-nação tem perdido poder?

Este mapa representa todos os aeroportos conhecidos no mundo. O processo de globalização foi beneficiado pelos aprimoramentos nos meios de transporte, e, atualmente, é uma ameaça ao Estado-nação. (Créditos: Open Flights)

O processo de globalização, como descrito pelo geógrafo brasileiro Milton Santos, é caracterizado por três aspectos diferentes: “fábula, perversidade e possibilidade”. O primeiro alega que os países integrar-se-ão mais, logo suas sociedades e economias prosperarão. De acordo com o segundo, essa prosperidade é prejudicada, pois se intensificam as desigualdades sociais, degrada-se o meio ambiente, e a mecanização transforma o mercado de trabalho. O terceiro cenário, entretanto, é mais otimista, uma vez que reafirma o potencial para a construção de um mundo melhor – não idealizado, porém suficientemente bom. Entre as consequências da “globalização perversa”, está a perda de poder dos Estados-nação, um fenômeno contemporâneo.

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Análise – Discurso de Dilma Rousseff na ONU

Dilma Rousseff discursando para a comunidade international durante a 68ª Assembleia Geral da ONU. (Créditos: The Guardian / Spencer Platt / Getty Images)

Rousseff e sua equipe devem agradecer pelo fato de que o discurso do Brasil é tradicionalmente o primeiro a acontecer. Em vez de discursar para uma multidão de chefes de Estado e diplomatas enquanto eles estão entediados, ela pode argumentar de maneira mais entusiástica. Dentre os argumentos dela, há uma breve referência ao ataque terrorista no Quênia, o esperado repúdio às atividades ilegais de espionagem cometidas pela NSA e um apelo para a solução diplomática da crise síria. Dada a importância de inúmeros assuntos debatidos por Dilma, é essencial reconhecer como as palavras dela são suficientes para ilustrar os interesses brasileiros a curto prazo. Este artigo irá destacar as principais partes do discurso, assim como comentar as intenções delas.

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