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O fim de uma era

Em meados de 2007, criei o blog Eficiência Vital com a missão de facilitar o cotidiano de várias pessoas, por todo o Brasil, ao resumir notícias e dicas de vida. Eu era muito jovem, e alguns dos meus textos mais antigos refletem essa simplicidade juvenil. Depois de certo tempo, uma reformulação fez com que o blog adotasse o nome Atualizado, porém continuasse com o mesmo endereço digital. A ideia era oferecer informação de qualidade, para todos. Alguns dos posts aqui escritos já foram utilizados em escolas brasileiras, portuguesas, e, até mesmo, em trabalhos acadêmicos e manuais de ensino.

Foram mais de 50 posts publicados, quase 15 mil leitores regulares, e um (quase) incontável número de visualizações, ao longo de sete anos. Aqui, foram abordados assuntos diversos: do futebol à geopolítica; da sociologia aos jogos digitais; da tecnologia moderna à história medieval. Em comum, apenas a característica de que são assuntos que importam. Textos lidos principalmente no Brasil, em Portugal e em Angola. Mesmo assim, alguns de nossos visitantes vieram da Rússia, da Noruega e do Tadjiquistão. No total, mais de 100 países, em algum instante, acessaram o Atualizado.

Em algum momento, contudo, tudo acabaria. A Internet é efêmera, e o Atualizado não vai negar isso. O último texto do blog foi escrito em 2014 e, desde então, o site tem ficado “desAtualizado“. Outras plataformas de publicação digital surgiram, e algumas delas provaram ser melhores que os websites no WordPress.com, em vários quesitos.

É por isso que, hoje, anuncio a descontinuação deste blog. Atualizado, de fato, não será mais atualizado. Os textos aqui publicados permanecerão como estão, sem alterações. Pense neles como um registro histórico: uma forma de dizer ao mundo que este blog existiu, e cumpriu com êxito sua função informacional.

Para encontrar mais conteúdo de qualidade, te convido a conhecer o site Bittencourt Notes, ou a página dele no Facebook. Ele tem o mesmo espírito, mas apresenta uma proposta inovadora. Para saber as notícias, a gente não precisa de um blog — há várias redes sociais que nos mostram conteúdo gratuito. Atualmente, o que importa é fazer sentido das notícias. Se você estiver a fim de compreender algumas questões globais, bem como conhecer novos pontos de vista, dê um tempinho para ler essa nova publicação.

Agradeço imensamente por sua leitura, e por tudo que aprendi com o Atualizado.

Um abraço e até logo,

Thiago.

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Poder estadunidense no século XXI: declínio previsível?

Em tempos de “potências emergentes”, alguns dizem que a influência global dos EUA está sob constante declínio devido à China. Entretanto, até que ponto isso pode ser dito?


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Em 26 de dezembro de 1991, com o fim oficial da União Soviética, a predominância dos Estados Unidos fora confirmada: a humanidade passou da bipolaridade à unipolaridade (ou “unimultipolaridade”, segundo alguns autores). Desde então, os americanos têm agido globalmente como os detentores da hegemonia, aqueles que se sobressaem na governança internacional — foram apelidados, não erroneamente, de “polícia do mundo” –, por meio do uso de seus imensos hard e soft power.A posição de liderança deles permaneceu incontestada até recentemente, quando “nações emergentes” começaram a provocar mudanças no sistema internacional ao se oporem, de qualquer maneira possível, ao conservadorismo. A ordem do dia parece ser a transformação da estrutura interestatal criada após a Segunda Grande Guerra.

Esse surgimento simultâneo, sem precedentes, de diversos atores importantes, muito mais do que em qualquer outra era da civilização, está sendo exemplificado perfeitamente pela ascensão da China. O gigante asiático é historicamente conhecido por sua enorme população, e, nas últimas décadas, tem sido glorificado devido à sua crescente economia, a qual apresenta níveis de desenvolvimento invejáveis. John Mearsheimer, o teórico norte-americano da tradição neorrealista de Relações Internacionais, argumentou que ambas essas características são “pré-requisitos para a construção de forças militares formidáveis”. Seria natural, então, acreditar que os chineses possam utilizar esse poder latente para fazer com que sua força geopolítica supere aquela dos Estados Unidos.

Quanto mais se investiga a situação, entretanto, mais difícil fica confiar nessa perspectiva. Sempre que se traz o conceito de poder a debate, ele deve ser explicitamente diferenciado de hegemonia. Enquanto que o primeiro lida com a capacidade de influenciar outros (pensando-se em fins), ou possuir consideráveis capacidades materiais (pensando-se em meios); o segundo significa a preponderância de um único ator, cujo poder ultrapassa, de longe, o resto. Embora a China certamente afrontará a supremacia estadunidense; dado o atual estado das coisas, improvavelmente ela fadará o poder dos EUA ao fracasso.

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A crise na Crimeia de 2014

“Marcha da Paz” em Moscou, uma aglomeração de pessoas suplicando pelo fim das práticas militares no Mar Negro. (Créditos: Bogomolov.PL)

O discurso contemporâneo de Relações Internacionais tem se mostrado enfurecido contra a anexação da Crimeia, em progresso, pelas autoridades russas. Desde o fim da Revolução Francesa, muito se tem dito sobre o direito à autodeterminação. Os revolucionários são considerados os principais apoiadores desse conceito, o qual constituiria uma das bases do sistema internacional. Especialmente após o início da Guerra Fria, processos de descolonização defenderam a ideia de “Estado-nação”. Especificamente naquela época, a autodeterminação era mais importante do que a soberania de um Estado – caso fosse necessário, poder-se-ia dividir um país em dois, ou até mais que dois, para sustentar a noção de “uma nação, um Estado”. As Nações Unidas até tinham um órgão chamado Comitê Especial de Descolonização, encarregado de monitorar o fim do período colonial.

Conforme o tempo passava, todavia, uma clara mudança de rumo desenvolvia-se nas mentes dos políticos, especialmente nas daqueles que tentavam alcançar a coesão dentro de países específicos. Intervenções e anexações não poderiam mais ser justificadas ao evocar o princípio do Estado-nação. Aliás, desde o fim da era da descolonização e das dissoluções no pós-Guerra Fria, a única secessão relevante de um país ocorreu em 2011, devido à fundação do Sudão do Sul. Até mesmo atos supostamente “humanitários” ou “democratizantes” que envolviam invasões externas enfrentaram feroz oposição – as sucessivas incursões americanas no Iraque e no Afeganistão exemplificam perfeitamente as controvérsias relativas ao desrespeito à autonomia de um Estado.

É por isso que a situação atual na Crimeia intrigou vários analistas, uma vez que ela representa, claramente, uma ruptura com o passado. É amplamente sabido que, enquanto o governo russo luta para manter suas possessões territoriais, ele também encoraja grupos separatistas dentro de seus vizinhos. Mesmo assim, não há registro, nos últimos anos, de uma real tentativa da Rússia de expandir suas fronteiras à custa de Estados consolidados – ao menos não por meio do emprego de recursos militares (ainda que os soldados russos estejam disfarçados de rebeldes locais ucranianos). Para explicar o estado das coisas na Crimeia, deve-se apelar a uma estrutura de três diferentes – porém relacionadas – instâncias.

A partir de um ponto de vista utilitário para um intangível, pode-se dizer que a atitude da Rússia em relação à península quase independente se baseia nos seguintes propósitos: o interesse econômico nas reservas de gás e nos gasodutos existentes na região, a tentativa de contrabalançar o expansionismo ocidental no Leste Europeu, e o desejo de Vladimir Putin de reestabelecer o esplendor russo que caracterizou as primeiras décadas da Guerra Fria. De certo modo, praticamente toda a literatura acadêmica sobre a crise crimeia focou-se, pelo menos, em um dos aspectos acima mencionados. Esta dissertação desenvolver-se-á da seguinte maneira: primeiramente, examinar-se-á cada uma das hipóteses propostas para explicar a questão; em segundo lugar, sugerir-se-ão possíveis desdobramentos da situação; e, por fim, concluirá com uma pergunta a ser considerada pelos governantes desta década.

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Os paraísos fiscais e a economia global

Clique na imagem para vê-la em tamanho maior. Este mapa ilustra alguns dos paraísos fiscais globais. Existem países, cidades, ilhas e regiões que ostentam essa caracterização. Sem dúvida, os paraísos fiscais são muito mais que meras ilhas exóticas. (Créditos: Grant Thornton)

A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a maioria das regiões do planeta que eram previamente colonizadas conquistou a independência. Aquelas que não conseguiram livrar-se da dominação externa foram apoiadas pelos Estados Unidos e pela União Soviética – superpotências ansiosas por áreas de influência –, o que contribuiu para a criação de Estados autônomos. Nesse contexto, países como a Federação de São Cristóvão e Nevis puderam consolidar sua soberania. Uma das consequências desse processo foi a fundação de paraísos fiscais, locais onde os impostos governamentais são menores do que os padrões internacionais. Enquanto que muitas pessoas acreditam que essas áreas são apenas ilhas exóticas; na verdade, elas constituem uma parte substancial do sistema econômico global.

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As revoluções industriais e a economia global

CH - Rev. Ind. - SP

Foto da Bolsa de Valores de São Paulo. Atualmente, as economias de diversos países já alcançam níveis globais. (Créditos: Rafael Matsunaga)

O homem, em sua essência, como definido por Thomas Hobbes, foi caracterizado por viver independente de outros. Como qualquer ser vivo, ele era amaldiçoado pela competição, problemática que o fez buscar reunir-se em sociedade para ter a sua vida assegurada. Esses acontecimentos foram propostos e estudados por inúmeros filósofos, dentre os quais Hobbes, denominados contratualistas. Para eles, a elaboração de um contrato social – possuidor de limitações à liberdade humana – permitiria que todos obtivessem vantagens. Entretanto, esse quadro de prosperidade mútua não é visto atualmente. A economia global, ainda que interligada e evoluída, é palco de intensas disputas, principalmente em tempos de crise. O desenvolvimento das diversas revoluções industriais é crucial para compreender as razões para isso.

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